Autismo nos primeiros 2 anos: os sinais que muitos pais não percebem logo
Invalid Date · Dra. Camilla Santos Caiado
Quando a palavra "autismo" aparece numa conversa de consultório, a reação mais comum dos pais é: "mas ele olha nos meus olhos, dá risada, faz carinho..." Como se autismo fosse uma coisa única, fácil de reconhecer, com cara definida.
Não é assim.
O Transtorno do Espectro Autista é exatamente isso: um espectro. Existem crianças com autismo que falam muito, que têm contato visual, que fazem carinho, que parecem "normais" por anos. E existem sinais sutis nos primeiros dois anos de vida que passam despercebidos — não por descuido dos pais, mas porque ninguém nos ensinou a olhar para eles.
Por que identificar cedo importa tanto?
O cérebro nos primeiros anos de vida tem uma plasticidade enorme. Quando a intervenção começa antes dos 3 anos, os resultados são muito melhores do que quando ela começa depois. Não estamos falando de "curar" — o autismo é parte de como o cérebro daquela criança funciona. Estamos falando de dar para ela as ferramentas certas para se comunicar, aprender e estar no mundo com muito mais qualidade de vida.
Isso começa com identificar cedo. E identificar cedo começa com saber o que observar.
Sinais que aparecem antes do primeiro ano
Muitos pais me perguntam: "dá para perceber com menos de 1 ano?" Sim, em alguns casos. Não de forma definitiva — diagnóstico de autismo não se faz em bebê —, mas existem comportamentos que chamam atenção:
- Pouco sorriso social. O bebê típico começa a sorrir "de volta" para o rosto do cuidador a partir dos 2 meses. Bebê que raramente sorri em resposta ao sorriso do adulto merece atenção.
- Contato visual instável. Não é que nunca olha — mas o olho no olho é fugaz, sem aquela qualidade de "conexão" que a gente sente nos bebês.
- Pouca imitação. Bebês adoram imitar expressões. Fazer carinha, abrir a boca, dar de língua. Se isso está muito ausente, é um sinal.
- Resposta ao nome. A partir dos 6 meses, esperamos que o bebê comece a virar quando chamado. Chegar em 9 meses sem essa resposta consistente chama atenção.
O que observar entre 12 e 24 meses
Essa é a janela em que os sinais costumam ficar mais evidentes — e também em que muitos pais percebem que algo está diferente, mesmo sem saber nomear o quê.
Apontar para compartilhar: existe uma diferença importante entre apontar para pegar algo e apontar para mostrar algo. "Olha, mãe, um avião!" Esse gesto de compartilhar interesse — chamado de atenção compartilhada — costuma aparecer por volta de 12 meses. Quando ele está ausente ou muito reduzido, é um sinal que valorizo muito na avaliação.
Brincadeira simbólica: por volta de 18 meses, as crianças começam a brincar de faz de conta. Dar comidinha para a boneca, fingir que o carro está dormindo. Criança que brinca de forma muito repetitiva e mecânica — girar rodinhas, enfileirar objetos — sem esse componente simbólico, pode estar mostrando algo.
Comunicação não-verbal: fala não é a única forma de comunicar. Criança que não aponta, não acena, não usa gestos para se comunicar até os 12 meses, merece avaliação.
Regressão: uma das histórias que mais ouço é: "ele estava falando algunas palavras, aí sumiu." Perda de habilidades que a criança já tinha — fala, comunicação, contato social — é um sinal que exige avaliação imediata.
"Mas ele brinca com a gente, faz carinho..."
Sim. E isso não descarta nada. Autismo é muito mais complexo do que a imagem do "menino que fica no canto sem olhar para ninguém." Muitas crianças com autismo:
- Têm contato visual seletivo — olham para quem gostam, menos para estranhos
- São afetuosas com família próxima
- Falam (às vezes muito)
- Parecem "normais" em situações conhecidas e previsíveis
O que pode estar diferente é a qualidade das interações sociais, a flexibilidade, a presença em diferentes contextos, a comunicação funcional.
O que não é sinal de autismo
Para equilibrar: nem tudo que parece diferente é autismo.
Criança tímida que demora a se soltar com estranhos — não é autismo. Criança que demora a falar mas se comunica bem de outras formas — pode ser só atraso de linguagem. Criança com birras intensas — isso é desenvolvimento normal em determinadas fases.
Diagnóstico de autismo exige avaliação especializada, observação cuidadosa e critérios específicos. Não se faz pelo comportamento isolado, nem pelo instinto.
Quando e como buscar avaliação?
Se você está com dúvida, não espere. Buscar avaliação não é "rotular" sua criança — é entender como ela funciona para apoiá-la melhor.
A avaliação neuropediátrica olha para o desenvolvimento de forma integral: fala, motor, social, comportamento, histórico. Quando necessário, encaminha para uma equipe multidisciplinar — fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia.
O diagnóstico precoce abre portas para intervenções que fazem diferença real na vida dessa criança. E quando a avaliação mostra que não é autismo, você também ganha algo valioso: tranquilidade para seguir em frente.
Se algo no jeito do seu filho te faz pensar, traga essa dúvida para a consulta. Às vezes o que os pais sentem antes de qualquer profissional é exatamente o que precisa ser investigado.