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Desenvolvimento

Meu filho não fala ainda: quando é só o tempo dele e quando precisa de atenção

Invalid Date · Dra. Camilla Santos Caiado

"A sobrinha dele da mesma idade já faz perguntinhas. O meu quase não fala." Se essa frase já passou pela sua cabeça, você está em boa companhia. Provavelmente a maioria dos pais que senta comigo na consulta já viveu alguma versão dessa comparação. E é exatamente por isso que vale conversar com calma sobre isso.

A linguagem é uma das áreas do desenvolvimento que mais gera dúvida — porque ela varia muito entre crianças, mas também porque, quando há algum atraso real, o tempo importa.

O que é esperado em cada fase?

Crianças não se desenvolvem num ritmo uniforme, mas existem janelas que nos ajudam a entender se tudo está no caminho certo:

  • Ao redor de 1 ano: a maioria das crianças já fala pelo menos 1 ou 2 palavras com intenção (mamã, papa, água). Apontar para coisas e entender palavras simples também conta muito.
  • Ao redor de 18 meses: esperamos em torno de 10 a 20 palavras. Criança que imita sons e palavras está mostrando um sinal muito positivo.
  • Aos 2 anos: o marco clássico é falar cerca de 50 palavras e começar a juntar duas delas ("quer água", "bola cai"). A criança que ainda não chegou nisso merece avaliação.
  • Aos 3 anos: frases de 3 palavras ou mais, consegue se fazer entender pela família e por pessoas de fora em boa parte do tempo.

Esses números são médias. Existe variação normal. Mas eles existem por um motivo: quando uma criança fica muito abaixo desses marcos, pode ser sinal de que algo precisa de atenção.

"Mas ele entende tudo que a gente fala..."

Esse é o argumento que eu ouço mais. E ele realmente pesa — a compreensão é um indicador importante. Criança que entende ordens simples, responde ao próprio nome, aponta para o que quer, está mostrando que o cérebro está processando linguagem.

Mas atenção: compreensão e fala são coisas diferentes no cérebro. Uma criança pode entender bem e ainda assim ter dificuldade para expressar. O fato de ela entender não descarta a necessidade de investigar se a fala está atrasada.

Quando o "tempo dele" vira um argumento para esperar demais?

A frase "cada criança tem seu tempo" é verdadeira. Mas ela não pode virar desculpa para ignorar sinais que merecem atenção. Existem algumas situações em que eu peço para não esperar:

Chame atenção se sua criança:

  • Não responde quando você chama pelo nome dela (em qualquer idade)
  • Não aponta para mostrar coisas (até os 14 meses, isso já é um marco)
  • Perdeu habilidades de fala que já tinha — falava palavras e parou
  • Não imita sons nem gestos
  • Chega aos 2 anos sem nenhuma palavra clara
  • Chega aos 2 anos sem juntar duas palavras
  • Tem fala muito limitada e você percebe dificuldade para se comunicar com outras crianças

Nenhum desses itens sozinho fecha um diagnóstico. Mas cada um deles é um motivo para avaliar.

O que pode estar por trás do atraso?

Nem todo atraso de fala é a mesma coisa. Algumas crianças têm um atraso de linguagem sem outra causa aparente. Outras podem ter:

  • Perda auditiva — a criança que não escuta direito não aprende a falar direito. Isso é mais comum do que parece, e é um dos primeiros exames que pedimos.
  • Transtorno do Espectro Autista — o atraso ou ausência de fala pode ser um dos primeiros sinais, especialmente se vier junto com dificuldade de contato visual e pouco interesse em interações sociais.
  • Distúrbios específicos de linguagem — quando o restante do desenvolvimento está dentro do esperado, mas a fala e/ou compreensão estão aquém.
  • Questões motoras orais — dificuldade na coordenação dos músculos da boca para produzir sons.

Por isso a avaliação importa: ela ajuda a entender o que está acontecendo e a direcionar o tratamento certo.

O que fazer enquanto isso?

Independente de buscar avaliação, existem coisas que você pode fazer no dia a dia que fazem muita diferença:

  • Fale com seu filho sobre tudo que está acontecendo. "Agora a gente vai lavar as mãos." "Olha o cachorro lá fora." Narrativa simples, vocabulário rico.
  • Leia para ele desde bebê. Livros com imagens, histórias curtas. Isso expande vocabulário de um jeito que nenhuma outra coisa substitui.
  • Reduza o tempo de tela passiva — aquela em que a criança assiste sem interação. A fala se aprende na troca, não na tela.
  • Espere a resposta. Quando você pergunta algo, dê tempo para ele responder antes de responder por ele. Parece óbvio, mas no agito do dia a dia a gente acaba falando pela criança.
  • Não corrija a fala de forma brusca. Se ele disse "agua" querendo dizer "água quente", você responde: "ah, você quer água quente!" — e repete certo, naturalmente.

Quando procurar ajuda?

A partir do momento em que você está com dúvida, já é hora de conversar com um especialista. Não precisa esperar os 2, 3 anos para "ver como fica". Quanto mais cedo identificamos e intervimos, mais o cérebro responde.

A avaliação com neuropediatra pode ajudar a entender o quadro completo, pedir os exames necessários e, se for o caso, encaminhar para fonoaudiologia ou outros profissionais.

Se você está com essa dúvida sobre o seu filho, pode trazer para a consulta. Sem julgamento — só para olhar com atenção e te dar clareza sobre o que fazer a seguir.

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